A 9ª feira literária do Colégio Anglo, em Três Lagoas, mostrou que cada apresentação feita pelos alunos carrega um trabalho silencioso de orientação, incentivo e escuta dentro da sala de aula. Nos bastidores do evento, que ocorreu na noite de sexta-feira (6), na unidade escolar, as professoras Marília Rúbio e Júlia Oliveira, de gramática, língua portuguesa e literatura, falaram sobre o desafio de aproximar os estudantes da leitura em um tempo marcado pelo celular, pela tecnologia e por novas formas de aprender. Elas participaram do RCN Mob, unidade móvel do Grupo RCN.
Para Marília, a tecnologia pode fazer parte do processo, mas não ocupa o lugar do livro.
Jamais a tecnologia vai competir com um livro. A gente pode usá-la a nosso favor, mas substituir, não”, afirmou. “Só as páginas de um livro têm poder de transformação, de reflexão. Folhear o livro, conhecer histórias, percorrer novas realidades e se emocionar com personagens é uma experiência única.”
Professores buscam novas linguagens para aproximar alunos da leitura
Marília reconhece que manter o interesse dos alunos pela leitura se tornou uma tarefa mais difícil. Segundo ela, os estudantes leem cada vez menos, muito por causa da facilidade tecnológica, e ferramentas como o ChatGPT também têm impactado a vivência escolar.
“É um desafio, porque os alunos estão lendo cada vez menos. O ChatGPT também tem atrapalhado muito a nossa vivência escolar. Ninguém escreve mais”, avaliou.
A estratégia, explicou a professora, passa por escolher obras capazes de dialogar com o universo dos alunos. Um dos exemplos foi o trabalho do 8º ano com O Quinze, de Rachel de Queiroz, apresentado em uma edição em quadrinhos.
“Eu sempre tento escolher os livros pensando nos meus alunos, naquilo em que eles provavelmente vão se interessar mais. No caso do 8º ano, eles não leram o livro tradicional, a gente trouxe uma edição em HQ. Isso facilita muito a leitura, traz uma nova linguagem, as imagens contribuem e foi um livro que eles amaram ler”, contou.
A obra serviu de base para a apresentação da turma na feira. Os alunos organizaram quatro estações: nas duas primeiras, os convidados acompanham a travessia da família de Chico Bento e Cordelina; na terceira, entram em contato com produções de cordel feitas a partir de trechos escolhidos do livro; e, na quarta, participam de uma proposta de reflexão sobre a realidade apresentada na história.
Marília explicou que a estação do cordel nasceu da união entre poesia, literatura popular e o contexto nordestino da obra.
“Eles escolheram partes do livro e transformaram em poema de cordel”, disse.
Alunos ganham autonomia durante o processo
Júlia Oliveira destacou que, no início, muitos estudantes ainda dependem bastante da orientação direta do professor, especialmente nas turmas do 6º e do 7º ano. Com o andamento dos projetos, porém, a participação cresce e habilidades que nem sempre aparecem nas atividades tradicionais começam a surgir.
“No início, eles têm uma dependência do professor falar: faça isso, faça aquilo. Mas você começa a observar alunos que têm criatividade, que você nem imaginava, e isso começa a aparecer nesse momento”, afirmou.
Segundo Júlia, o próprio grupo passa a se organizar melhor à medida que entende a proposta. Alguns alunos assumem tarefas, outros ajudam colegas que participam menos, e o engajamento se espalha de forma mais natural.
Marília completou que o trabalho começa com uma orientação inicial das professoras, mas ganha corpo com as sugestões dos estudantes.
“A gente faz uma orientação inicial, aquilo que pensou de início, e eles contribuem depois, dando sugestões e dizendo o que acham que vai ou não dar certo.”
Leitura melhora escrita, repertório e comunicação
Na avaliação de Marília, o impacto da leitura aparece de forma clara no cotidiano escolar, principalmente na escrita, no repertório e na capacidade de organizar ideias.
“É perceptível o aluno que lê. Ele escreve bem, tem bagagem, tem repertório. Às vezes nem é só facilidade na escrita, mas ele tem ideias, e o aluno que não lê não sabe o que colocar no papel”, afirmou.
A feira também contou com um jornal produzido para o evento. Marília atuou como revisora editorial e teve o apoio de três alunas do ensino médio. Uma das partes da publicação, chamada “Com a palavra aos nossos leitores”, reúne depoimentos de estudantes sobre a contribuição da literatura para a vida escolar, acadêmica e pessoal.
Além da escrita tradicional, a professora defende atividades que valorizem diferentes habilidades dos alunos. Para ela, limitar a produção textual a um texto de 30 linhas reduz as possibilidades de expressão dentro da escola.
“Eu sempre tento trazer outros tipos de trabalho que não sejam só a escrita tradicional. Tenho alunos que escrevem melhor e tenho alunos que vão muito melhor na parte oral. Nós temos muitos alunos artísticos aqui, e a gente precisa valorizar isso”, disse Marília.
Quadrinhos viram narrativa no trabalho do 7º ano
Júlia também citou o trabalho desenvolvido com o 7º ano a partir de histórias sobre mitos africanos. O livro usado pela turma apresenta o conteúdo em formato de quadrinhos, e os alunos receberam a proposta de transformar uma narrativa visual em texto.
“Eu propus que eles fizessem uma releitura de uma narrativa. Os pais ficaram impressionados ao ver como eles transformaram aquilo que era quadrinho em narrativa”, contou.
Para a professora, esse tipo de atividade mostra que os estudantes conseguem aplicar, na prática, o que aprendem em sala. A participação das famílias também foi percebida durante o processo, especialmente no acompanhamento da evolução e do desenvolvimento dos alunos.
Nos bastidores da feira, as professoras reforçam que o papel da escola vai além de apresentar livros aos estudantes. O trabalho envolve orientar, adaptar linguagens, valorizar talentos e criar caminhos para que a leitura deixe de ser apenas uma obrigação e se transforme em experiência, expressão e conhecimento.